terça-feira, 15 de abril de 2008

amor sem nota nem preço

Ele era tímido, introvertido, culto, gostava de música calma e bons livros. Ela era romântica, frágil, linda, sensível, gostava de poemas e pessoas. Ele passava, cabeça baixa. Ali, na frente da vitrine da loja de roupas estava ela, distraída, entretida. Ele viu um pé de magnífica delicadeza, calcanhar sutilmente levantado, a ponta pisando com carinho, ao redor do tornozelo uma tatuagem, três pequenas estrelas. O brilho de súbito encheu-lhe os olhos, que subiram calmamente, idolatrando as belas pernas, fitando a barriga descoberta, o rosto que virava-se um pouco sacudiu cabelos que voavam, espalhando seu perfume suave e bom. Torpor.

Era ela, a mulher da sua vida, que sempre esperara sem saber, que chegara sem avisar. Tinha certeza, só ao vê-la, sabia que a encontrara. A harmonia perfeita. Ele tocaria belas músicas ao violão, ela contemplaria atenciosamente, entenderia e amaria receber suas flores, enxergaria suas qualidades, dariam-se longos e fortes abraços todos os dias. Ela olhava as roupas, nenhuma cor lhe parecia viva o suficiente, nenhum corte encaixava-lhe, como também nenhum dos amores experimentados servia-lhe: apertado demais sufoca, folgado esconde, até que com alguns ficava legal, mas duvidava... Algo sempre dizia que aquela combinação não cabia. Precisava de um homem que caísse bem, que a cobrisse de atenção mas deixando livres seus movimentos, que tocasse música baixinha, só pra ela, que a surpreendesse sempre com flores muitas. Eles vivenciariam a infinitude do nós. Estava nua de amor, doara as suas paixões antigas. Estava surdo de paixões, não efetivara seus futuros amores imaginados.

Ele abriu a boca, derrotado por qualquer linha de raciocíno ou contenção lógica, tentou falar, balbuciou, gaguejou (sim, saíram sons audíveis mas indecifráveis), mas sua criatividade era parca, escasso repertório de improvisos até para iniciar uma conversa de reticências, daquelas sem graça, sem muita objetividade de onde se quer chegar. Ela ouviu o esforço do rapaz, enxergou seu rosto desesperado, apertou a bolsa com o braço contra o corpo, e saiu, com certa pressa no passo, a denunciar a fuga. O tempo passou como flecha, rápida ao alvo, que fecha corações e rasga memórias. Hoje ela é divorciada, tatuagem desbotada, vida borrada, amor apagado e trabalha como secretária num escritório numa firma no centro. Ele, ainda solteiro, é caixa de banco e vendeu o violão. Todas as noites, antes, durante e depois de dormir, eles sentem saudades dos amores que nunca tiveram.

3 comentários:

cicero disse...

"Hoje ela é divorciada, tatuagem desbotada, vida borrada, amor apagado..."

Gostei muito desse sapildo! =))))
de verdade. me fez lembrar aquela conversa que tivemos, lembra? vide grifo! merecia outro texto, ham? anotou a sugestão???

obs.: barradão eh sinonimo de jeff!

cerão

Fernanda disse...

Bravo!!

Lilane Anjos disse...

Nossa!! Perfeito!!!