sexta-feira, 30 de maio de 2008

A vida cabe nos autos?

Relatório para a disciplina Processo do Trabalho - Audiência.


Não vou mentir, dizer que ela era como os "outros". Não. Os "outros" vinham pequenos, porque se sentiam pequenos naquele prédio grande, de elevador e escada rolante, cheio de gente importante, cheio de doutor. E se já se sentiam pequenos quando entravam, quanto mais ali ficavam, mais se encolhiam, tremiam, ou porque o ar-condicionado para ternos e tailleurs era forte demais ou porque quando a gente se encolhe o corpo contrai e treme, tentando ser menor, combatendo o espaço onde cabem gestos livres. Porque aquela gente, "os outros", normalmente é gente alegre. Gente que brinca no mundo. Que trabalha das oito ás seis e faz hora extra, e dobra, e é explorado... mas sai para dançar no final do expediente e com o mínimo vive vida que o mínimo não permite. Porque o mínimo é só aquele mesmo para trabalhar de oito as seis, e dobrar, e fazer hora extra e ser explorado sem morrer antes do final do mês. Mas como já deixei claro, fora dali a maioria dos "outros" é pessoa de gestos amplos, grandes, dessas que constroem casas, fazem cara de mau na frente de bancos e festas, limpam, varrem, passam, trabalham, trabalham, trabalham... E se o trabalho enobrece mesmo o homem, mais do que o dinheiro, os ternos e tailleurs,... Todos os "outros" eram nobres. No lado de fora, se realmente fossem... Porque ali dentro eram pobres coitados, trabalhadores. Alguns sem carteira de trabalho, sem os direitos que lhe eram cabidos, a maioria, pior, sem voz. O corpo pouco confortável, os olhos baixos, as mãos cruzadas dentro das pernas. Emsimesmados. Para que ouvir? A língua ali era outra. Para que ver? Se não sabiam ouvir, ver era pior... porque a percepção não é isolada e se as palavras saiam fluídas da boca daquela gente douta e não diziam nada aos ouvidos, os olhos só podiam confirmar que eram mesmo estrangeiros, quando não teimavam em se convencer que eram ignorantes, dependentes, incapazes. E falar? Falar ali era o mais difícil. Ninguém se fala diretamente. O advogado pergunta, o juiz pergunta de novo o que o advogado perguntou, mas não traduz e os "outros" respondem, sem ter entendido a pergunta direito. Respondem de qualquer jeito mesmo. Mas sabem intimamente que aquilo tudo é armadilha. Ninguém confia em ninguém. Ninguém conta a verdade. Se tem advogado já sabe disso antes, porque o advogado ensina rapidamente o que deve ou não ser dito... se não tem advogado, essa gente é sagaz e percebe de pronto que vai ser encurralado. Percebe mas não consegue fazer muito para evitar que isso aconteça. E começam as perguntas e respostas... Ninguém se ouve, ninguém é sincero... E alguém no fim decide. Isso quando não decidem antes. "Juntos". Então por hora a sala vira um balcão de negociações. Quem dá mais??!! Parcela??!! Foi um ótimo negócio! Ninguém nem sabe direito o que acordou. O "outro" normalmente não sabe exatamente ao que tem direito. As vezes é convencido de que tem direito a mais e enche os olhos. As vezes aceita o que vinher porque sem aquele mínimo, que já não tem, fica difícil dobrar a vida fora dali.
Mas ela era diferente dos "outros".
O cabelo preso em um coque no alto da cabeça. A saia no joelho, a blusa três quartos, por dentro, alva, o sapato de salto alto. Por pouco, pela roupa cuidadosamente guardada para uma ocasião muito especial, "roupa de ver Deus", talvez se soubesse aquela língua e aquelas abstrações, passaria por um dos tantos doutores. Mas a pele era preta, o jeito era simples e sentou-se, sozinha, do lado do coração do juiz. Não era patroa. Era empregada. Empregada doméstica. Invenção para legitimar a semi-escravidão. Trabalhou dois anos na casa da patroa, que tinha advogada. Uma sobrinha recém formada, competente, rápida e pior, doce. Ela tinha afeto pela moça. Mas ali a menina era parcial, não podia mais elogiar o bolo e os almoços que a autora fazia antigamente. Para ela,porém, talvez aquela advogada ainda fosse a jovem para quem fazia sucos durante as tardes de estudos com a prima... e esse foi o grande erro... a inocência de confiar que alguém ali se preocupava com ela, ou com o seu direito, ou com justiça.
A sala de audiência estava cheia. Cheia de gente desinteressada, fazendo pressão pela "celeridade". De cinco em cinco minutos não se resolvem tantas ações quanto se planeja.
A juíza era jovem, dedicada, mas a mesa sempre ficava cheia de processos. Não podia fazer muita coisa para tornar aquele ambiente mais propicio a resolução dos conflitos de forma eficaz e justa... não de cinco em cinco minutos...
Muito bem. Ela estava ali pois tinha sido despedida e sabia que lhe era devido algo... não sabia exatamente o que. Queria, principalmente, que assinassem sua carteira de trabalho e queria também saber se era permitido o desconto do vestido que tinha queimado ao passar roupa. Estava ali porque era corajosa. Sua cabeça não ficava baixa. Olhava nos olhos. Mas como não entendia bem o que ouvia...
Começou bem. Segura. Se negando a aceitar bagatelas. Começou firme, crente, até orgulhosa por estar ali sozinha. Mas quando começou o jogo de palavras, quando começaram a falar e seus apelos para que a juíza traduzisse não eram satisfatoriamente respondidos... a partir desse momento... não chegou a gaguejar, mas seus pés batiam forte e seus olhos, antes confiantes, agora queriam encontrar o chão.
Abriram então na frente dela uma tela de computador cheia de números. Dou-lhe uma: Não, não aceito. Quero meus direitos, quero que assine minha carteira. Dou-lhe duas: Por favor, me diga o que ela quis dizer com isso.Por favor, traduza. Dou-lhe três: Um terceiro que assistia fez mais cálculos dizendo-lhe que para assinar a carteira nos moldes que a patroa queria ela gastaria grande parte do que receberia nesse acordo. Polêmica. Dou-lhe quatro: Mas e o vestido?? Ela pode descontar o valor desse vestido. Não, não foi o terceiro vestido que eu queimei. Ela me descontou 250 reais, porque queimei um vestido!E nem me deu o vestido. Ao menos eu quero o vestido! Da para usar. Ela até já usou uma vez! Foi acidente de trabalho, ela diz. Minha cliente está disposta a dar até quinhentos reais. Aceita?
A juíza riu, "acidente de trabalho", ria porque achava graça, ria de nervoso, ria porque já tinham passado cinco minutos, ria para não chorar, talvez. A menina que um dia foi doce com ela, advogada, agora usava de todas as artimanhas para que aquilo acabasse logo e do jeito mais econômico para sua tia-cliente. Quinhentos reais! Dou-lhe cinco: Um silêncio constrangedor.
E ai? Aceita ou não aceita? Mil reais, á vista, minha cliente te faz o cheque agora. Você desconta hoje mesmo. Silencio ansioso. Presa fácil? Cairia na armadilha? Mas e o resto que me é devido? Mas isso é um acordo... Os lados tem que abrir mão de alguma coisa ou esse processo não vai acabar nunca!!! Nós já te fizemos um proposta. Um coro silencioso se instala na sala. Baixinho os pensamentos impõe: Aceita, aceita, aceita. Todos a fuzilam com os olhos... Diga alguma coisa. Quebrou finalmente o silencio:
Mas e o vestido?
A juíza já com os olhos no relógio, folheia a reclamação...
O vestido não está nos autos.
Mas ela descontou 250 reais do meu salário.
O vestido não está nos autos.
Mas ainda dá para usar. Foi um acidente.
O vestido não está nos autos.
Silêncio.
Confusa, enigmas, o que são os autos?
Aos poucos o silêncio foi adentrando o corpo dela, tornando-o vazio, pequeno, encolhido, frio, um corpo de "outro".
Pegou o cheque. Pensou no vestido...
Mas a vida não cabe nos autos.

2 comentários:

CiCO disse...

muuuuuuuuuuitooooooo bommm milaaaaaaa!!!! maravilhoso!

fiquei angustiado aqui... vc conseguiu... muito bom, parabens!
queria ate copiar algumas frases no inicio pra fazer referencia no final, mas desisti pq seriam muitas...

um beijo

cicero

Elcia disse...

Mila...esse texto me deixou arrasada!!!! São os eternos conflitos e dores da nossa profissão... Não pense que passa com o tempo, pois ainda sinto tudo isso!! Muito bom, amiga!!! Beijo!!